A última quarta-feira (14) foi marcada por emoção, ancestralidade e sentimento de pertencimento na explanação do Enredo da Nenê de Vila Matilde para o Carnaval 2027. Com presença da imprensa, Compositores e integrantes da Comunidade, a azul e branca da Zona Leste apresentou oficialmente “Mulheres de Palmares – A Liberdade Tem Rosto de Mulher”, Enredo que será desenvolvido pelo Carnavalesco Chico Ângelo no Grupo de Acesso 2. O evento também marcou o Lançamento Oficial do Concurso de Samba-Enredo da Escola e reuniu diferentes Segmentos da Comunidade matildense em uma noite de forte conexão com a identidade afro.
Clima de emoção
A explanação foi acompanhada com atenção e emoção pelos presentes. Enquanto a narrativa do Desfile era apresentada, alguns Integrantes da Escola se emocionaram nos trechos que abordavam ancestralidade e o protagonismo das mulheres negras dentro da história de Palmares. O sentimento era de identificação imediata com um Enredo afro que vinha sendo pedido há algum tempo pela Comunidade.
A apresentação começou com a leitura detalhada da Sinopse do Desfile, que será dividido em quatro atos: Acotirene, Aqualtune, Dandara e as Herdeiras de Palmares. Durante a explanação, Chico Ângelo reforçou diversas vezes que o Projeto não pretende resumir mulheres negras à dor da escravidão, mas exaltar Protagonismo, liderança e continuidade histórica.

“Eu não quero falar de mulheres acorrentadas. Quero falar de mulheres livres, fortes, inteligentes e que construíram Palmares. A história dessas mulheres vai muito além da dor”, afirmou o Carnavalesco.
Chico definiu o tom que pretende levar para a Avenida. “Acho que será um desfile com um tom emocional muito forte, como um grito de liberdade preso na garganta, com mulheres empoderadas Desfilando na Avenida. Será um Dsfile potente e com uma carga emocional elevada”, declarou.
Narrativa ancestral
A construção do Desfile vai atravessar ancestralidade africana, formação do Quilombo dos Palmares, Espiritualidade, Maternidade, luta coletiva e resistência negra contemporânea. O primeiro ato será centrado em Acotirene, personagem ligada à formação de Palmares e aos saberes ancestrais. O segundo apresentará Aqualtune como símbolo de organização, proteção e afeto coletivo. Já o terceiro setor será dedicado à força de Dandara como mulher de combate, liberdade e resistência.
O encerramento do Desfile será voltado às “Herdeiras de Palmares”, conectando as Mulheres Quilombolas às Mulheres Negras da atualidade que seguem ocupando Espaços Políticos, Culturais e Sociais.

Segundo Chico Ângelo, o último Carro Alegórico deverá reunir homenagens a mulheres pretas que ajudaram a construir o país em diferentes áreas.
“Quero homenagear toda mulher preta que ajudou a construir este país e que merece reconhecimento. A lista é enorme, mas o carro tem limites, então vamos escolher esses nomes com muito carinho. São mulheres que merecem nossos aplausos eternos”.
Durante a explanação, o Carnavalesco convidou a Ex-Secretária Municipal de Cultura de São Paulo, Aline Torres, e a histórica Porta-Bandeira da Mancha Verde, Adriana Gomes, para representarem o espírito do Setor final do Desfile, dedicado às herdeiras contemporâneas de Palmares.
“Várias mulheres pretas do Carnaval me inspiraram e me ajudaram a construir o Crnavalesco que eu sou”, contou.

Professora emocionou comunidade
Após a apresentação da sinopse, Chico Ângelo chamou à frente a Professora Adriana Vasconcellos, responsável por auxiliar na Pesquisa do Enredo. A participação da educadora transformou a explanação em um momento de reflexão sobre Ancestralidade, Negritude e Matriarcado Negro.
O Carnavalesco destacou a importância da Professora em sua formação dentro da luta antirracista.

“Ela é Professora, e eu acho que esse é o papel Principal da Adriana: Ensinar. Muita da minha bagagem na luta antirracista veio daqui. Então, essa é a minha grande incentivadora”, declarou.
Durante sua fala, Adriana relacionou o conceito de matriarcado às estruturas presentes nas Escolas de Samba, nos Terreiros e nas Rodas de Capoeira, além de destacar a importância de resgatar histórias apagadas da População Negra.
“As Mulheres Negras já carregavam essa estrutura antes mesmo do sequestro. E é importante lembrar que matriarcado não tem nada a ver com disputa ou oposição aos homens. Matriarcado é a mulher como coluna da sociedade”, explicou.
A Professora também emocionou a Comunidade ao falar sobre pertencimento e acolhimento nos espaços negros.
“Esse resgate que está sendo feito é algo ímpar porque é verdadeiro. Precisamos resgatar as nossas histórias e a nossa negritude. A Escola de Samba é um espaço sagrado, de resistência, de liberdade e de libertação”, comentou.
Retomada da identidade
A Diretora de Carnaval, Bruna Babalu, revelou que o Projeto foi escolhido entre três propostas enviadas por Chico Ângelo. Segundo ela, o Enredo representa uma retomada da essência histórica da azul e branca.
“Quando vi o Enredo das Mulheres de Palmares, ainda no começo, quando era ‘Mulheres do Quilombo’, já senti que esse era o caminho. Esse Enredo é a cara da Nenê. A Nenê precisava desse Enredo Afro. A Comunidade está em êxtase e abraçou completamente o Enredo”, afirmou.

A Dirigente ainda relacionou o Projeto ao momento vivido pela Escola após os últimos Carnavais, em um ambiente de reconstrução da identidade matildense.
Concurso de Samba-Enredo
A noite também marcou o Lançamento Oficial do Concurso de Samba-Enredo da Escola para o Carnaval 2027. A apresentação foi conduzida pelo Diretor-Geral Rodrigo Oliveira, com presença do Diretor Musical Tonn Queiroz, do Diretor da Ala de Compositores, Cassio de Oliveira, e do Diretor de Harmonia, Douglas Neto.
Durante a apresentação, Tonn reforçou a tradição musical da azul e branca e pediu atenção dos Compositores à identidade da Escola.

“A Nenê é a Escola que mais tem prêmio de Samba-Enredo em São Paulo. A fórmula já existe. Ninguém precisa inventar nada”, declarou.
O Diretor Musical também destacou que os Compositores precisam compreender profundamente a essência musical da Escola e a narrativa do Enredo.
“É fazer um Samba com a cara da Nenê. A Escola já tem hoje um Enredo com a cara da Nenê, que é um Enredo Afro, do jeito que a Comunidade gosta. Agora, a gente precisa de um Samba com a cara da Nenê. Procurem construir um Samba em que a história tenha um fio condutor. Vamos trabalhar letra, vamos fazer poesia”, afirmou.
A Escola informou que não realizará eventos até o dia 25 de julho, quando acontecerá a Tradicional Feijoada das Alas Reunidas, marcando o reencontro com a Comunidade. Os sambas concorrentes serão apresentados em formato de Roda de Samba, e os finalistas serão definidos no mesmo Evento.
A grande Final acontecerá no dia 2 de agosto. O Samba vencedor receberá premiação de R$ 3 mil. Em caso de parceria entre Compositores, o valor será dividido entre os vencedores.

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