Cenotécnica, Compositora e Intérprete
SAMBA DE BATOM
No Compasso do Samba a Vida Pulsa.
O samba é uma conversa entre ritmos. Uma troca de olhares entre instrumentos. Uma dança entre o peso e a leveza. E é ali, entre o toque grave do surdo e o brilho repentino de um solo de cavaco, que a vida pulsa — com seus silêncios e explosões, com seus ritmos que nem sempre seguem a partitura.
Entre um surdo e um solo, mora a alma do samba. O surdo chega firme, marca presença, sustenta. Ele é como aquele amigo que não aparece todo dia, mas quando chega, a gente sente a base se firmar. Já o solo é liberdade. É aquele momento em que o músico fecha os olhos e deixa os dedos falarem o que a boca calou. É a fala improvisada do coração.
E a vida é isso. Um pouco surdo, um pouco solo. Às vezes firme, às vezes solta. Tem dia que a gente é ritmo de base: trabalhando, sustentando, cuidando de tudo e de todos. E tem dia que a gente se permite ser solo: cantar, criar, dançar sem direção. Mas é na junção dos dois que a melodia da existência se revela.
O samba ensina que ninguém toca sozinho. Um solo pode até brilhar por instantes, mas se não tiver a base por trás, ele se perde. O mesmo vale na vida: o sucesso, o talento, a criatividade só florescem quando há estrutura, apoio, comunidade. O aplauso vem bonito quando vem da roda.
Nas rodas de samba que cresci vendo, entre barracões, praças e quintais, aprendi que a música nasce primeiro no corpo. Antes de tocar, a gente sente. Fecha os olhos, ouve o surdo marcando e entra no compasso. O samba exige escuta. Exige humildade. Ninguém chega atropelando o ritmo. Quem samba de verdade, respeita o tempo do outro, o silêncio entre os acordes, o espaço de quem vem depois.
E isso serve pra vida também. Quantas vezes precisamos aprender a esperar o nosso momento? A respeitar o compasso da dor, da cura, do crescimento? O samba não apressa a roda, ele gira com sabedoria. E quando gira com todos em harmonia, aí sim acontece o milagre: tudo vira canto, tudo vira beleza.
Entre um surdo e um solo também moram as histórias que o Brasil insiste em esquecer. Histórias que não foram escritas nos livros oficiais, mas que ecoam nos terreiros, nas vielas, nas escolas de samba. É ali que o povo canta sua verdade, com ginga, com dor, com esperança. É onde o batuque vira protesto, o refrão vira grito, e a batida do tambor denuncia o que o silêncio não deu conta de esconder.
É por isso que o samba resiste. Porque ele carrega em si a memória dos nossos, o calor da comunidade, a fé de quem acredita que cantar ainda é um jeito de sobreviver. Que tocar um instrumento é mais do que música: é um ato de afirmação, de identidade, de luta.
E assim seguimos, entre um surdo e um solo. Pulando obstáculos no compasso do pandeiro. Carregando sonhos nas cordas do cavaquinho. Dando sentido à vida com as palavras simples do samba. Porque o samba não é só ritmo. É filosofia. É política. É reza. É abrigo.
Que a gente nunca perca a base. E nunca tenha medo de improvisar.
Nos vemos na próxima batida.














