ENREDO: GRIÔ
É noite. Fogueira abrasa no centro do terreiro.
Ao redor, um ancião reúne os iniciados e sopra palavras, acendendo a voz mística que se ergue em saudação:
Laroyê, Exu! Mojubá! Fagulha primeira, Senhor das Encruzilhadas que abre os caminhos e faz a história circular.
Saluba, Nanã! Divina senhora que molda a memória no barro.
Iroko Issó! Iroko Kisselé! Salve o Senhor do tempo, árvore sagrada que rege a eternidade.
E fala:
“Eu vim do silêncio do mundo, quando a boca não conhecia o verbo. Gente de carne, como nós, não tinha memória para recordar. Nada! Passado não existia. Futuro, tampouco. Só o pulsar da vida no agora.
Certo dia, um sábio caminheiro vindo do reino Ashanti me narrou que, em tempos imemoriais, viveu Kwaku Ananse, um ser divino, meio humano e meio aranha. Ele não queria apenas contemplar o correr dos dias, mas povoar a Terra de histórias. Com agilidade, Ananse teceu uma enorme teia de prata. Por ela, subiu ao céu onde morava o grande deus Nyame.
Dono de todos os enredos do universo, o supremo Nyame duvidou da capacidade de Ananse, desafiando-o a lhe trazer as criaturas mais ferozes e astutas do reino.
Pelo poder do convencimento, paciência e encantamento, Ananse cumpriu tudo o que foi pedido e conseguiu o que queria. Colocou as histórias em uma cabaça e desceu pelos fios que havia bordado. Mas o artefato que carregava se partiu. Naquele momento, o mundo nasceu outra vez: os contos guardados se espalharam por todos os recantos. E Ananse virou o narrador primordial, envolvendo toda a gente com seus fios de histórias.
Desde então, contar virou ato de força vital. Nada era mais poderoso que a palavra moldada com justeza. Por ela, tornou-se possível esculpir lembranças.
E eu caminhei no tempo.
No Mali, encruzilhada do continente africano, renasci no prestigiado clã dos Djéli, casta social que fazia circular o sangue da memória entre os Mandingas. Dinastia de músicos e poetas que transmitiram todo o conhecimento pela palavra dita e pela palavra cantada.
Eu aprendi com os antepassados e ensinei meus sucessores a tocar Balafon, e a dedilhar as cordas sagradas do Korá, instrumentos passados de geração a geração. Cada um desses objetos sonoros carregava uma força mística. A cadência e o ritmo, unidos ao timbre da minha voz, revelavam poderes encantatórios.
Foi assim que narrei aos filhos dos meus filhos o apogeu no suntuoso Mali, no tempo do lendário mansa Sundiata Keita, rei dos cem reis vencidos, unificador daquele império de ouro e sal.
Sem nós, os Djéli, a comunidade cairia no abismo do esquecimento. Por isso, éramos muito respeitados e tidos como o eixo da continuidade dos saberes por meio da escuta e da memorização.
Até que veio o colonizador e nos batizou de Griôs.
O nome que eu carrego, Griô, foi também atribuído a diferentes povos que contavam histórias e cantavam loas na África Atlântica. Mas muitos dos meus irmãos e irmãs tiveram seus enredos silenciados.
Deu branco… A memória… (…) Ia… se apagar…
As histórias, porém, sobreviveram na minha fala, no corpo e no canto de fazer lembrar. Se os nossos saberes tivessem sido escritos na fibra da árvore morta, o branco os teria queimado. Nosso tecido social não desbotou. A oralidade costurou as lembranças, salvou nossa cultura do fogo do esquecimento.
A herança que recebi dos antepassados, eu doei com a minha voz.
Eu reexisto na fala dos que vieram antes de mim.
Foi por isso que eu ressurgi nos versos trazidos da alma nas minerações das Gerais. Garimpei ouro e diamante, reatei laços ao som dos vissungos, cantos de esperança e de saudade da terra original.
Eu me nutri de palavra e de canção. Partilhei o banquete de mistérios que meus antepassados me proveram e prepararam antes da minha chegada.
Aprendi a conservar o Axé nas casas de santo, a guardar os segredos espirituais, a reconhecer o invisível dançando diante dos olhos. Me embalei no ponto firmado. Me banhei de saudações e ensinamentos por meio de itãs e oríkìs para que nunca esquecesse meus caminhos. Minha palavra se fez música e trovão.
Hoje, eu me alimento em coletivo de cantigas, de sambas de roda e de repentes. Faço coro nos jongos, congos e folias. Eu revivo nos saberes das mestras e mestres da cultura popular.
Eu faço a recordação adormecida se acender! Meu impulso vital é contar as histórias que o Brasil nem sabia que precisava conhecer…
Eu me tornei o guardião dos enredos que ainda vão nascer. Mobilizo o terreiro místico para dar de comer ao sagrado com o meu samba.
Minha voz fala ao futuro por meio da tua voz!
Sou a sabedoria acumulada, sou entidade viva, detentora dos saberes do meu ilê. Baluarte, orixá em Terra. Sou também comunidade em voz altiva que um dia bordou as glórias do meu pavilhão… e rega as raízes para o amanhã.
É essa memória que agora eu faço despertar: cumprir o rito anual de narrar histórias ao redor do fogo em terreiro sagrado, como faço desde o princípio.
Eu sou Griô! Samba! Escola!
Guardião da memória preta!
E vim aqui para contar o meu enredo”.
Carnavalesco: Tarcísio Zanon
Texto: João Gustavo Melo
GLOSSÁRIO:
Ashanti: Povo que faz parte do grupo étnico Akan, localizado na porção ocidental da África, onde hoje fica Gana.
Balafon: Instrumento musical feito de teclas de madeira e cabaças, tocado com duas baquetas. Acompanha as falas e canções dos griôs, ajudando a narrar genealogias de heróis, casamentos e cerimônias religiosas.
Djéli: Casta do reino do Mali, formada por famílias de contadoras e contadores de histórias. Eram também conselheiros reais. Narravam e entoavam canções épicas sobre as dinastias reais do Mali, entreposto comercial e cultural para diversas populações da África Ocidental. O nome “Djéli” se refere à ideia de laços de sangue, aqueles que fazem circular a vida social.
Griô: Para alguns linguistas, a origem da palavra “Griô” vem da forma como os franceses ouviram a palavra “criado”, em português, referindo-se à casta dos djéli, contadores de histórias que acompanhavam os antigos reis do Mali.
Itã: Narrativa, mito ou conto do povo Iorubá. Transmite filosofias, conhecimentos e origens dos orixás.
Korá: Instrumento feito de 21 cordas, semelhante a um alaúde. Produz melodias e acordes suaves de grande riqueza harmônica. Acompanha os griôs nas contações de histórias e narrativas épicas. Assim como o balafon, é considerado um instrumento musical sagrado.
Mansa: Título de nobreza utilizado pelo povo do Mali para designar o soberano do reino.
Oríkì: Palavras e provérbios de Axé do povo Iorubá. Vem de Orí (cabeça) e Kì (saudar, louvar). Pode ser dito sobre orixás, pessoas, animais ou lugares.
Provas de Ananse: Para entregar as histórias do mundo, Ananse teve que cumprir algumas provas para Nyame, o deus supremo: Capturar o leopardo Osebo, a serpente Onini, os marimbondos (Mmbooro) e a feiticeira Mootia. Há variações nas versões contadas sobre as provas de Ananse, mas evocamos estas como as mais recorrentes.
Sundiata Keita: Supremo unificador e fundador do Império Mali. Também conhecido como o “Rei Leão”, governou entre 1235 e 1255, tendo seus feitos eternizados pelo Griô (Djéli) Bala Fasseké Kouyaté, habilidoso mestre contador de histórias e conselheiro. Até hoje, os Kouyaté são uma dinastia de griôs, com músicos e atores que espalham, por meio da oralidade, o legado do seu povo.
Teia de Ananse: Símbolo de coesão social e dos enredos contados pelo povo Ashanti.
Vissungos: Cantigas que misturam o português arcaico com língua quimbundo, quicongo e umbundu, sendo entoadas no trabalho nas minerações, celebrações fúnebres, ritos de cura e em festividades. Serviam também como um código secreto para poderem se comunicar por meio da oralidade durante o processo de escravidão no Brasil.
REFERÊNCIAS:
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MARTINS, Leda Maria. A Fina Lâmina na Palavra. Rio de Janeiro: Cobogó, 2025.
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Outras referências:
10 – SER GRIOT – Pape Babou Seck – MEMÓRIAS ANCESTRAIS
Homenagem ao ator Sotigui Kouyaté no Arte do Artista
Da Kali: The pledge to the art of the griot
The Griot tradition of West Africa | Sibo Bangoura | TEDxSydney
Coluna África em Verso: “Griot”, por Ed Mulato – Por dentro da Áfric
O Canto dos Escravos – Canto I
Griot, símbolo da oralidade africana | Mwana Afrika Oficina Cultural














