O primeiro debate do último dia do Seminário Nacional das Rodas de Samba falou sobre como as Políticas Públicas, o controle e a participação social ajudam no mapeamento dos locais das Rodas de Samba em todo o Brasil. O sambista baiano Thiago Carvalho falou da dificuldade dos Blocos de Carnaval de Salvador devido à falta de apoio da iniciativa privada, tendo que contar apenas com as leis de incentivo e com o apoio do Governo do Estado da Bahia.
“Quando a gente fala de distribuição do dinheiro a partir das Leis de Incentivo,, a gente entra num debate que, por exemplo, fala da realidade da minha cidade. Blocos Afro e Blocos de Samba no Estado da Bahia têm uma grande dificuldade de captar recursos da iniciativa privada. E uma grande dificuldade, mesmo tendo o apoio do meu Estado, mesmo tendo o Projeto aprovado nas leis de incentivo. A dificuldade existe porque as grandes marcas que podem patrocinar não querem ter as suas marcas vinculadas a projetos que são voltados para o povo preto periférico. Nos nossos Bairros Afro na Bahia, a gente vê o Ilê desfilando, a Mudança do Garcia desfilando, a Velha Guarda, Alerta Geral, a própria Congada do Ilê desfilando, mas é uma luta constante. Os Grupos dependem muito mais do dinheiro público, do dinheiro do Estado, do que da iniciativa privada, porque a iniciativa privada não quer investir ali”.
O Analista Técnico do Senai RJ, Anderson Lins, falou do início de um plano desenvolvido pela instituição para analisar as Rodas de Samba e construir parcerias que possibilitem espaços para a realização das atividades.
“De realização desses movimentos, desde o primeiro ano que a gente tem uma categoria específica, que chama-se Rodas de Samba. Até o ano passado era Rodas de Samba e Choro. E aí a gente tem Rodas de Samba e Choro e os seus, pode ser assim, contextos primos, que é o forró, e daí outras manifestações que estão próximas a ele. Então, específico para a Roda de Samba, a gente tem hoje 14 unidades, mas tem a oportunidade de chegar a 30. Se a gente for pensar que a gente tem uma Roda de Samba por mês em cada unidade, a gente poderia ter esse volume de realização. Isso significa a própria discussão sobre sustentabilidade desses Grupos Artísticos. Lembrando que a Roda de Samba não é feita só de Artistas. A gente tem Articuladores, Profissionais importantes que viabilizam a própria existência dessas estruturas. São interlocutores que vão buscar esses encontros e discutir a Política Cultural para a área, a partir de exemplos, contextos e realizações. Escrever em edital, é claro, é necessário, mas é preciso ter traquejo nessa linguagem. E esse traquejo é importante saber que nem todos têm logo no primeiro contato”.
O Diretor da Rede Nacional das Rodas de Samba, Wanderson Luna, falou sobre como o Samba é a cara do Brasil e sobre a necessidade de as Rodas de Samba receberem mais atenção das autoridades públicas.
“O Samba é a tecnologia que o nosso povo inventou para poder sobreviver, para poder ter espaço numa sociedade que muitas vezes nos excluiu. É importante acreditar nisso, ter a alma do sambista. Quem chega hoje precisa saber que muita gente perdeu a vida, perdeu a família e enfrentou dificuldades para que a gente pudesse estar aqui. O Samba também é entretenimento, a gente precisa ganhar dinheiro, precisa viver da arte, mas tem que ter a responsabilidade de entender a sua importância histórica e social. Foi a tecnologia que o nosso povo criou para sobreviver e conquistar espaço”.
A Cantora Marina Íris afirmou que a capacidade de organização espontânea do Samba não pode ser usada como argumento para a falta de apoio às Rodas.
“Não pode virar argumento para acabar com a gente. Sim, a gente sabe se virar sozinha, mas não pode e não merece se virar sozinha. O Samba é feito para dar certo. Se eu começar a batucar aqui, em pouco tempo vão chegar três, quatro pessoas e vai surgir uma Roda de Samba. Esse é um grande mérito da Roda, ser espontânea e ser feita para dar certo. Mas isso não pode ser usado contra a gente. Em vez de potencializar a nossa construção, acabam dizendo que para o Samba qualquer coisa serve. A Roda de Samba é formadora. É formadora da infância, da imaginação, da construção de afeto e do respeito a quem veio antes. Não existe futuro sem explicar quem veio antes e não existe preservação da memória sem falar da infância e da formação”.
O Secretário do Ministério da Cultura, Fabrício Antenor, lembrou da ideia de realizar o Seminário. Segundo ele, seria possível organizar um encontro apenas com gestores públicos, mas a decisão foi ouvir os sambistas para aperfeiçoar as Políticas Públicas voltadas às Rodas de Samba. Também falou sobre os desafios encontrados quando assumiu o Ministério da Cultura ao lado da ministra Margareth Menezes e elogiou o evento pela contribuição ao fortalecimento do Setor.
A Presidente substituta da Funarte, Aline Vila Real, afirmou no encerramento do debate que representantes de diversos estados manifestaram a intenção de realizar fóruns estaduais sobre as Rodas de Samba. Ela também lembrou que, durante determinado período, as manifestações culturais e as Rodas de Samba ficaram impedidas de ocupar Espaços Públicos e mostrar seu talento para a população brasileira.
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