Sendo a 4ª Ecola da noite a Desfilar na primeira noite de Desfiles da Série Ouro, a Unidos de Bangu, com o Enredo “As coisas que mamãe me ensinou”, homenageou a trajetória de Leci Brandão na música, na política, na Mangueira e no ativismo. Com uma Comissão Didática e segura e um Casal tecnicamente consistente e elegante, a Bangu deixa a Sapucaí com credenciais para pleitear boa colocação na apuração de quinta-feira. A Escola terminou o Desfile com 56 minutos, 1 minuto além do máximo permitido, e, será penalizada na apuração.
De autoria dos Carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, a Escola transformou a Avenida em extensão do quintal e da militância da artista, costurando ensinamentos maternos, consciência social e Samba como ferramenta de transformação.
COMISSÃO DE FRENTE
A Comissão é Coreografada por Fábio Costa e composta por 15 Componentes. Sete malandros em prateado reluzente e sete cabrochas em vermelho intenso representaram a alma do Samba que conduz Leci pela vida. Intitulado “Alma do Samba”, o número trouxe o Samba na vida de Leci, apresentando-se com essência e espírito que se expressam na música, na cultura e na paixão pela vida, sendo a alma de sambista que a leva à Quadra da Mangueira e às Rodas de Samba desde criança.
Falando em criança, a pivô da Comissão era uma garotinha, que interagiu o tempo todo com os Malandros e as Cabrochas. A Coreografia no chão foi muito bem executada, com passos de Samba e dança de salão; a essência sambista foi traduzida.

Mas o ponto alto foi o Tripé que a Comissão trouxe: uma vitrola que se abria e na qual os bailarinos subiam. Do interior da vitrola surgia uma Leci madura, microfone em punho, acompanhada por um Caboclo, Iansã e Ogum, referências diretas às citações do Refrão do Samba.
Distribuindo a Coreografia pelo Tripé e com instrumentos musicais retirados dele, o show se encerrava com homens fazendo uma ilusão, como se o violão estivesse flutuando.
Nos três Módulos de Jurados, a Comissão se apresentou sem erros, carismática e causando excelente efeito visual.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O Casal Leonardo Moreira e Bárbara Moura veio vestido de “Ancestralidade Familiar”, com as cores dourada e vermelha. Eles representaram a conexão com os antepassados, em especial a de Leci com seus pais, simbolizando as raízes da identidade cultural e comportamental da Artista.
O Figurino estava muito bem elaborado; a ancestralidade e a família eram visíveis nas fotos de Leci coladas na Fantasia, como se fossem porta-retratos colocados carinhosamente.

Com uma Coreografia muito bonita e, muitas vezes, didática, o Casal teve seu desempenho evoluindo conforme passava pelas três Cabines. No primeiro Módulo, a Porta-Bndeira demonstrou nervosismo visível na expressão facial em alguns momentos, deixando a Dança não tão fluida em algumas passadas. O vento se fez presente durante a apresentação; mesmo com a bandeira molhada, era notável que ele atingia o Pavilhão de forma considerável. No entanto, Bárbara tirou de letra, não se abateu nem deslizou na condução da Bandeira, apresentando segurança e mais leveza na Dança, assim como Leonardo, que rapidamente notou o vento e demonstrou destreza ao pegar o Pavilhão no segundo Módulo, mesmo sob forte interferência que quase o tirou de sua mão. Foi aí que o nervosismo da primeira Cabine começou a desaparecer.
Na terceira Cabine, a apresentação foi perfeita; a química entre eles, que era tímida no início, já dava sinais de maior entrosamento.
Podem esperar boas notas na apuração; foi uma bela apresentação.
ENREDO
Dividido em três Setores, o Desfile foi concebido sem se apoiar em uma narrativa meramente biográfica. A Bangu optou por um Desfile que evocou valores, posturas e aprendizados. A figura de Leci apareceu não apenas como Cantora e Compositora, mas como cronista do cotidiano, política, lésbica e mangueirense.
No primeiro Setor, “A Ancestralidade que Trago Comigo”, o Abre-Alas “Minha Ancestralidade me Moldou” representou a proteção dos Orixás de Leci (Ogum e Iansã) em sua trajetória de vida e toda a construção de costumes e ensinamentos de seus pais.

No segundo Setor, “Uma Carreira Construída à Base do Amor e da Fé”, a Alegoria “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa” trouxe a forte ligação de Leci com o morro e a Estação Primeira de Mangueira, mesmo sem ter morado lá.
No terceiro Setor, “Socialista Graças a Deus”, a Alegoria “Quilombo da Diversidade” foi a representação fiel da luta e do compromisso de Leci com as causas sociais. Bandeiras LGBT, remetendo à orientação sexual da Cantora, foram o Destaque que encerrou o Desfile.
ALEGORIAS E ADEREÇOS
As três Alegorias da Bangu não apresentaram nenhuma avaria ou problema visual. Todas estavam bem finalizadas, com detalhes e Adereços bem feitos e seguros. Destaque para a unidade regular em todos os Carros.

O Abre-Alas “Minha Ancestralidade me Moldou” apresentou uma belíssima Iansã na ponta do Carro. A segunda Alegoria, “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa”, como o nome já diz, bem verde e rosa, remetendo à paixão de Leci Brandão pela Mangueira, causou belo efeito na Avenida, embora as esculturas com orelhas desproporcionais tenham quebrado a sobriedade do Conjunto, conferindo ao Carro um tom involuntariamente jocoso.
A última alegoria, “Quilombo da Diversidade”, na qual Leci veio sentada à sua frente, representou toda a luta da Artista e sua reafirmação como mulher lésbica. O carro, assim como os outros, não apresentou nenhum problema estético.

FANTASIAS
Apesar de modestas, todas as Alas estavam com Fantasias sem avarias. A Escola dificilmente poderá perder décimos com as Alas que Desfilaram. No entanto, as Fantasias das Composições, especialmente na Alegoria “Quilombo da Diversidade”, apresentaram concepção simplificada e baixo volume cenográfico, o que pode impactar a leitura plástica do Conjunto.

HARMONIA
O Carro de Som passou muito bem pela Avenida, mas não é possível dizer o mesmo sobre o Canto da Escola, que passou desequilibrado pelas Alas. Mesmo com o bom desempenho dos intérpretes Fred Viana e Pipa Brasey, o Canto da Comunidade se mostrou irregular entre as Alas, com trechos visivelmente enfraquecidos e Componentes pouco engajados. Poderia ter sido melhor; algumas Alas passaram com muitos Componentes calados.

SAMBA
Composto por Dudu Nobre, Junior Fionda, Marcelinho Santos, Binho Teixeira, Laura Roméro, Junior Falcão, André Baiacu, Geraldo M. Felicio, Valtinho Botafogo, Gilsinho da Vila, Fábio Bueno, JV Albuquerque, Jonas Marques e Juca, o samba apresentou força no Refrão “Ogunhê, meu pai Ogum / Epahey Oyá / Bato cabeça pra saudar seus Orixás”. Com sua letra, serviu perfeitamente para homenagear Leci Brandão, com citações às suas músicas famosas, como “As Coisas que Mamãe me Ensinou” e “Zé do Caroço”. O Samba foi potente na Avenida.

EVOLUÇÃO
É um Quesito para a Escola se preocupar: Muitos Componentes apenas andavam pela Avenida. A Escola acelerou o passo do meio para o final. A Bateria não entrou no segundo recuo, mas isso não foi suficiente para evitar a correria no último Setor. Terminando o Desfile com 56 minutos, um acima do máximo permitido, a Escola será despontuada em 0,1 ponto na apuração.

A Unidos de Bangu apresentou um Desfile coeso, visualmente regular e conceitualmente bem resolvido. Comissão e Alegorias sustentaram a proposta com segurança, enquanto pequenos ajustes em Harmonia e evolução podem pesar na leitura dos Jurados. Ainda assim, a Escola deixou a Avenida com uma homenagem firme, consciente e competitiva.
OUTROS DESTAQUES
Os Carros Alegóricos causaram belíssimo efeito na Sapucaí. Muito significativo um Desfile homenageando uma mulher lésbica ter uma Rainha Trans, como Camila Prins.
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