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Alegorias impactantes colocam a UPM como candidata ao título

A Unidos de Padre Miguel é definitivamente uma Escola que não sabe brincar. Depois de um Carnaval no Grupo Especial em que entendeu que recebeu um julgamento não lá muito justo, a UPM brindou a Sapucaí com mais um Desfile primoroso. Como no ano passado, como em 2024, quando subiu, é certo que o Boi Vermelho, salvas raras exceções, é uma Escola que faz Desfile sempre de nível de Grupo Especial. Seja com mais ou menos Componentes, seja com mais ou menos Alegorias, a qualidade que vem é de excelência. E o que se viu em mais este Carnaval foi isso: Comissão de Frente de alto nível, Casal em alta consciência rítmica, desbunde na qualidade das Fantasias, Alegorias impactantes, Samba na boca do público e uma Comunidade aguerrida que canta e brinca Carnaval como se estivesse no quintal da Vintém. De fato, o lugar da UPM não é nesse Grupo.

Com o Enredo “Kunhã-Eté, o Sopro Sagrado da Jurema”, desenvolvido pelo Carnavalesco Lucas Milato, a Unidos de Padre Miguel foi a quinta Escola a passar pela Sapucaí, nesta primeira noite de Desfiles da Série Ouro, com o tempo de 55 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Paulo Pinna, que também assina a Coreografia da Comissão do Salgueiro, estreou no Boi Vermelho da Zona Oeste apresentando, inicialmente, ainda na Coreografia, Guardiões da memória que firmam o pé e riscam no solo sagrado a potência de uma aldeia que não se curva ao invasor. Com indumentária indígena e pele tingida de vermelho, esses Guardiões adentram o Tripé que representou uma aldeia que floresce de troncos velhos, que se enraíza na força e na ancestralidade e que se curva para consagrar o seu povo. Nesse momento, os Guardiões da memória se enroscam nas raízes da Jurema. Ajuremado, no giro do Toré, o pajé conduz e induz o ritual, evocando a ira terrena e suplicando pelo fulgor de almas ancestrais.

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Nisso, surge a Kunhã-Eté, desbravadora, desconfiada, encaixando-se na sacralidade do passo marcado. Das águas sagradas do Rio Potengi, abençoadas pela Mãe D’Água e tingidas de urucum pelos potiguaras, surge a consagração: Kunhã-Eté, símbolo feminino. A pivô da comissão, representando Kunhã-Eté, nesse momento dança em um espelho d’água com efeito de chafariz. Do alto do tripé, da Jurema Sagrada, no clímax da comissão, surge a predestinação, em sangue quente, borbulhando nas veias de um corpo potente, emanando coragem, força e empoderamento. Uma comissão de nível de Especial pela sincronia da coreografia, encadeamento dos fatos apresentados, altíssima qualidade estética do tripé e do figurino dos componentes, que ainda brilhava e se destacava na luz cênica. Um dos melhores trabalhos de Paulo Pinna.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O experiente Casal Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas estreou na UPM e encarnou o sangue potiguara, vermelho vivo como o urucum que tinge corpos e histórias. Ao vestirem-se de vermelho-sangue-urucum, o corpo indígena assume poder, beleza e proteção mágica, reafirmando sua ligação com a terra e com a Jurema Sagrada. O vermelho que dominou o casal é sangue que significa vitalidade e continuidade: o que escorreu para que a cultura sobrevivesse e se transformasse em Canto.

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A dupla apresentou uma coreografia muito intensa, utilizando-se de forma bem eficiente do espaço. No início, o casal buscava giros e rodopios. Cris emendou uma sequência de giros bem intensa. Depois da apresentação do pavilhão para os jurados, os dois se encontram e, no refrão do meio, fazem um passo indígena no trecho “Ê cabocla pele morena”; na segunda vez, Marcinho faz um passo de ritual dos povos originários. No geral, uma dança sem problemas aparentes, intensa, com a parte clássica do que se pede para o casal de mestre-sala e porta-bandeira, além de movimentos que remetem ao enredo de forma sutil, mas bem colocada na coreografia.

ENREDO

O enredo “Kunhã-Eté, o Sopro Sagrado da Jurema”, desenvolvido pelo Carnavalesco Lucas Milato, trouxe uma homenagem à indígena Clara Camarão, símbolo da força potiguara que combina ancestralidade, espiritualidade e resistência. Dividido em três setores, inicialmente a Unidos de Padre Miguel apresentou o nascimento encantado de Clara, evocando a profecia xamã que anuncia sua vinda ao mundo, flechada pela Mãe D’Água e banhada pelas águas do Potengi. O segundo setor trouxe feitos históricos da Kunhã-Eté, exaltando sua participação em batalhas contra os invasores holandeses.

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No último Setor, Lucas Milato mergulhou no encantamento de Clara, sua transformação em Entidade sagrada que habita a Jurema, eternizada como Guardiã do povo, da floresta e da história. Enredo com a cara da Unidos de Padre Miguel, com ancestralidade, religiosidade, cultura e força de mensagem. Milato apresentou a história com diversidade nas fantasias, produzindo a estética indígena como pano de fundo, mas não só trazendo uma coleção de penas e palhas, e sim soluções criativas e foco no encadeamento da história.

EVOLUÇÃO

Apesar de terminar com a cronometragem máxima permitida, a Unidos de Padre Miguel soube dosar bem a sua passagem pela Sapucaí. Grande, a Escola sabia que o ritmo não poderia ser tão arrastado. Então, deu um sprint de maior energia no início e chegou bem ao final sem ter que correr. Na pista, do componente, o que se viu foi alegria, espontaneidade, mas muita garra. O sangue nos olhos, que me permita Betinha da Vigário, esteve presente neste desfile da comunidade da Vila Vintém. Mesmo em algumas alas em que a fantasia era mais volumosa e o cansaço parecia bater, os Foliões mantiveram o ritmo e a intensidade na Dança e na alegria.

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Por fim, não foram identificados buracos, grandes espaçamentos ou Alas se embolando durante o cortejo da UPM pela Sapucaí. A Escola trouxe poucas Alas Coreografadas, que deram um brilho maior ao Desfile sem prejudicar a espontaneidade do Componente, além de estarem bem alinhadas com o contexto do Enredo, como foi o caso da Ala cênica “A Batalha de Tejucupapo”, que falava justamente do embate ocorrido nesse lugar contra os invasores holandeses. O Figurino duplo trazia as mulheres lideradas por Clara Camarão e os soldados holandeses.

HARMONIA

Se estamos falando de uma Escola que faz Desfile de Grupo Especial, essa Agremiação precisa ter um Intérprete de Elite no Carnaval. E a Unidos de Padre Miguel tem. O multicampeão Bruno Ribas mais uma vez mostrou toda a sua qualidade para liderar o Carro de Som do Boi Vermelho da Zona Oeste, tendo a companhia, entre outras, da voz potente feminina de Lissandra Oliveira, que, inclusive, iniciou o Desfile cantando o alusivo do Samba.

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Bruno, com sua voz sedosa, única, com uma extensão vocal que compreende ir facilmente do grave ao agudo, ajudou a impulsionar mais um Samba da Unidos que passou muito forte na Avenida. E, se a Presidente Lara Mara pediu para o folião da Unidos de Padre Miguel “botar para fu…”, a Comunidade respondeu com muita garra, mais uma vez, cantando o Samba durante todo o tempo com energia, correção e intensidade.

SAMBA-ENREDO

O Samba dos Compositores Thiago Vaz, Jefinho Rodrigues, W. Corrêa, Richard Valença, Miguel Dibo e Cabeça do Ajax segue a predestinação da Escola para colocar grandes Obras na Sapucaí. Se, desde o esquenta, Bruno Ribas colocou a régua lá no alto cantando a Obra do ano passado, o Samba-Enredo deste ano não ficou aquém. Com o andamento um pouco mais à frente, sem atrapalhar a força da divisão rítmica e da profundidade da melodia, a Obra rendeu melhor que no Ensaio Técnico, interagindo com o público e fazendo com que a Escola pulsasse, vibrando muito forte pela Sapucaí.

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Com um Refrão de baixo mais forte, mais profundo, convocando o Componente a lutar em versos como “Vai, meu Boi Vermelho, honre a tua história” e “Quantas vezes for preciso, haverá renascimento”, essa parte mexe com o Componente e é, com certeza, a mais cantada com força pela Agremiação. Já o Refrão do meio, “Quando ecoa o tambor…”, tem muita musicalidade, ritmo e balanço, leva a dançar, e a Bateria “Guerreiros”, de Mestre Laion, ainda fortaleceu essa parte com uma Bossa de toada indígena. Alto rendimento da Obra na Sapucaí.

FANTASIAS

O Conjunto estético desenvolvido por Lucas Milato apresentou volumetria, qualidade estética, leitura, criatividade, bom gosto e uso de materiais de excelente qualidade, além do cuidado nos detalhes, como a presença constante de Adereços de mão e alto nível de acabamento dos Figurinos. No início da Escola, o Carnavalesco mesclou o vermelho característico da Unidos de Padre Miguel e a estampa indígena, trazendo para a Sapucaí um tapete de grande volume de penas bem desenvolvidas com xilogravura indígena, que ajudavam a fazer da cabeça da escola um grande culto à cultura indígena e às origens da homenageada.

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Destaque para a primeira Ala, “Troncos Velhos”, pela riqueza de detalhes e pela volumetria da Fantasia, que vinha antes do Abre-Alas. Depois, temos na Unidos a aparição de um dourado, às vezes mais predominante na Fntasia, outras em contraste com cores mais claras, como o verde e o azul das Baianas no figurino “Kunhã Clara Guerreira”, que trouxe como símbolo a própria Clara Camarão. O traje evocou o movimento circular das águas e das florestas – o azul das saias dialoga com a proteção da Mãe D’Água, enquanto os grafismos indígenas e as folhas da mata reforçam a ligação espiritual e ancestral dos potiguaras. No final, a predominância do verde quando o Desfile encerra ao falar do encantamento de Clara e da espiritualidade indígena. Destaque para a Fantasia “Jurema Sagrada”, da Ala 15, e “Encantamento da Mata”, logo em seguida. Trabalho primoroso de Lucas Milato. Alta qualidade estética.

ALEGORIAS

A Unidos de Padre Miguel trouxe para este desfile um Conjunto Alegórico formado por três Alegorias, e todas apresentaram alta qualidade de acabamento, boa leitura, criatividade, volumetria, traço limpo nas esculturas e consonância com a estética das alas que vinham antes ou depois. O Carro Abre-Alas, “A Consagração de Kunhã-Eté”, representou o momento em que a heroína Clara Camarão passou a carregar a missão de ser guerreira revelada pelas forças encantadas e ancestrais. O carro era composto por um corpo cilíndrico representando o Rio Potengi em tons vermelhos e, sobre a base, uma sucessão de elementos míticos, traduzindo a relação entre o mundo real e o encantado. Além disso, a Alegoria possuía movimento na cauda da criatura aquática que vinha na parte de trás.

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A segunda Alegoria, “A Batalha de Guararapes”, trouxe o cenário das guerras luso-brasileiras contra a ocupação holandesa no Nordeste. Plasticamente, o Carro apresentou um cenário de guerra. Na frente, leões sangrando, significando a derrota dos invasores. Nas laterais, o exército luso-brasileiro, composto por portugueses e indígenas. Este carro apostou no dourado. Já a terceira alegoria, “Território Encantado”, apresentou Clara Camarão deixando o plano dos homens e adentrando o plano encantado. O Carro traz o verde de uma terra de encantaria, com as matas. Toda a sua estrutura é tomada por troncos, cipós e raízes. Grandes cabeças indígenas compõem as laterais. No centro, no alto, um cocar e o corpo radiante de Clara pintado em seu novo plano. Talvez seja a melhor alegoria que vai passar pela Série Ouro, Carro de altíssimo nível estético e de muito volume.

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OUTROS DESTAQUES

A Bateria “Guerreiros”, agora sob a Coordenação de Mestre Laion Jorge, trouxe a Fantasia “Invasores Holandeses”, assumindo a forma dos exércitos flamengos, militares que ocuparam o Nordeste. A Bateria levantou a Sapucaí fazendo Coreografia, inclusive realizando o gesto da flecha no trecho do samba “e seja a flecha viva da memória”, além das Bossas bem encaixadas na Obra.

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A Rainha Dedê Marinho veio com a Fantasia “Resistência Indígena”, com o vermelho tomando todo o Figurino, como se a terra estivesse viva no corpo da Rainha através de LEDs. Bruno Ribas tacou fogo na Sapucaí ao cantar o Samba do ano passado, “Egbé Iyá Nassô“, no esquenta. A Presidente Lara Mara inflamou a Escola em seu discurso antes do Samba, lembrando da força de renascimento do Boi Vermelho.

10nota10.com / Redes Sociais / Unidos de Padre Miguel – RJ

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