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Sônia Campos

Cenotécnica, Compositora e Intérprete

A história oficial costuma fixar o olhar feminino no samba apenas quando ele ganha a avenida, sob a luz dos refletores, no desenho dos corpos e na beleza que encanta os olhos. É um papel lindo, claro. Mas quem reduz a mulher no samba à moldura da festa esquece de olhar para o alicerce. O samba não pede passagem para as mulheres; ele nasceu do ventre delas.
​Falar de presença feminina no samba vai muito além dos clichês atuais. Não se trata de um favor ou de uma concessão moderna, mas de um resgate de posse. Foram as tias baianas — como a mítica Tia Ciata — que transformaram seus quintais em refúgios sagrados quando fazer batucada ainda era caso de polícia. Elas não eram apenas anfitriãs; eram as estrategistas, as produtoras culturais da sua época, garantindo que o prato de comida e o respeito mútuo mantivessem o couro esquentando.
​Hoje, essa arquitetura invisível continua viva. O prisma feminino no samba se revela nos bastidores que ninguém fotografa: na liderança comunitária que bota o bloco na rua, na sensibilidade das pastoras que guardam os versos antigos na memória, e na precisão técnica das mulheres que, cada vez mais, conquistam o comando das baterias, quebrando a velha barreira de que o peso do surdo ou o ronco da cuíca não combinavam com as mãos de uma mulher.
​O olhar feminino humaniza o terreiro. Ele entende que o samba é uma construção coletiva, onde o acolhimento tem o mesmo peso da harmonia. Enquanto o mundo debate conceitos e rótulos modernos, as mulheres do samba continuam fazendo o que sempre fizeram com maestria: gerindo a cultura, sustentando a tradição e provando que, sem o toque delas, o compasso da vida pública perde o rumo.
​O samba de batom não é uma vertente; é a raiz que segura o tronco.


No Compasso do Samba a Vida Pulsa.

O samba é uma conversa entre ritmos. Uma troca de olhares entre instrumentos. Uma dança entre o peso e a leveza. E é ali, entre o toque grave do surdo e o brilho repentino de um solo de cavaco, que a vida pulsa — com seus silêncios e explosões, com seus ritmos que nem sempre seguem a partitura.

Entre um surdo e um solo, mora a alma do samba. O surdo chega firme, marca presença, sustenta. Ele é como aquele amigo que não aparece todo dia, mas quando chega, a gente sente a base se firmar. Já o solo é liberdade. É aquele momento em que o músico fecha os olhos e deixa os dedos falarem o que a boca calou. É a fala improvisada do coração.

E a vida é isso. Um pouco surdo, um pouco solo. Às vezes firme, às vezes solta. Tem dia que a gente é ritmo de base: trabalhando, sustentando, cuidando de tudo e de todos. E tem dia que a gente se permite ser solo: cantar, criar, dançar sem direção. Mas é na junção dos dois que a melodia da existência se revela.

O samba ensina que ninguém toca sozinho. Um solo pode até brilhar por instantes, mas se não tiver a base por trás, ele se perde. O mesmo vale na vida: o sucesso, o talento, a criatividade só florescem quando há estrutura, apoio, comunidade. O aplauso vem bonito quando vem da roda.

Nas rodas de samba que cresci vendo, entre barracões, praças e quintais, aprendi que a música nasce primeiro no corpo. Antes de tocar, a gente sente. Fecha os olhos, ouve o surdo marcando e entra no compasso. O samba exige escuta. Exige humildade. Ninguém chega atropelando o ritmo. Quem samba de verdade, respeita o tempo do outro, o silêncio entre os acordes, o espaço de quem vem depois.

E isso serve pra vida também. Quantas vezes precisamos aprender a esperar o nosso momento? A respeitar o compasso da dor, da cura, do crescimento? O samba não apressa a roda, ele gira com sabedoria. E quando gira com todos em harmonia, aí sim acontece o milagre: tudo vira canto, tudo vira beleza.

Entre um surdo e um solo também moram as histórias que o Brasil insiste em esquecer. Histórias que não foram escritas nos livros oficiais, mas que ecoam nos terreiros, nas vielas, nas escolas de samba. É ali que o povo canta sua verdade, com ginga, com dor, com esperança. É onde o batuque vira protesto, o refrão vira grito, e a batida do tambor denuncia o que o silêncio não deu conta de esconder.

É por isso que o samba resiste. Porque ele carrega em si a memória dos nossos, o calor da comunidade, a fé de quem acredita que cantar ainda é um jeito de sobreviver. Que tocar um instrumento é mais do que música: é um ato de afirmação, de identidade, de luta.

E assim seguimos, entre um surdo e um solo. Pulando obstáculos no compasso do pandeiro. Carregando sonhos nas cordas do cavaquinho. Dando sentido à vida com as palavras simples do samba. Porque o samba não é só ritmo. É filosofia. É política. É reza. É abrigo.

Que a gente nunca perca a base. E nunca tenha medo de improvisar.
Nos vemos na próxima batida.

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