APRESENTAÇÃO
“Se o povo te impressionar demais
É porque são de lá os teus ancestrais
Pode crer no axé dos teus ancestrais”
“Sou filha da Angola
Sou neta da Bahia
Sou cria da poesia
Que vem das ondas do mar”
“Gente que lutou pra se libertar
Ver no amanhã novo Sol chegar
Ter que trabalhar, reconstruir
Bom futuro há de vir
Eu vi Luanda, Benguela, Lobito e outras mais
Na Catumbela, o samba jorrou, me deu sinais
Que naquela terra cantaram, sambaram meus avós”
Em 12 de maio de 1980, 64 Artistas brasileiros deixaram o Rio de Janeiro para cruzar o Atlântico. O destino? Angola, país africano recém-liberto das garras do colonialismo português. Assim como o Brasil, esse povo se empenhou em superar a violência da colonização para estabelecer uma ideologia da cultura nacional angolana. A turnê político-artístico-musical pelas cidades de Luanda, Benguela e Lobito levou na bagagem uma sofisticada diversidade musical em intercâmbio com as expressões Locais de Saberes, Culturas, Danças e Músicas. Intercâmbio este que existia antes, existiu durante a viagem e sempre vai existir entre as duas Nações. Dos cerca de 4,5 milhões de homens, mulheres e crianças pretas escravizadas através dos séculos XVI e XIX, calcula-se que cerca de 3 milhões sejam de origem bantu, da região da atual Angola.
Nessa caravana designada PROJETO KALUNGA estavam netos e bisnetos de escravizados. Eram, portanto, Artistas africanos em diáspora que ao adentrar o solo africano criaram Obras Musicais Populares Brasileiras e Angolanas para além dos limites do território nacional. A expedição foi um novo capítulo nas relações Brasil/África ao realizar a travessia no sentido inverso: se outrora seus antepassados cruzaram o mar acorrentados, agora eles retornaram livres para celebrar a independência de Angola. Foi um encontro entre povos com raízes culturais que se atravessam de uma forma indissociável, incontrolável e encantada.
Esta jornada tornou Martinho da Vila carinhosamente conhecido pela população angolana como Embaixador, fez João Nogueira se emocionar como criança ao pisar em Mussulo, causou em Dorival Caymmi suspiros ao chegar àquela ilha e se imaginar na “sua Bahia”, gerou experiências espirituais em Dona Ivone Lara ao admirar o mar angolano, fez Djavan encontrar sua Identidade Musical e Chico Buarque compor “Morena de Angola” e mais, muito mais. A kalunga grande não matou a ancestralidade, ao contrário, a fez resistir e se reinventar como festa e alegria de ser, viver e pertencer. Hoje, quase 50 anos depois do Projeto, este marco histórico entre Brasil e Angola desembarca em um porto que se enche de orgulho em poder homenagear o feito tão simbólico para as culturas brasileira e angolana: o Porto da Pedra.
Sejam bem-vindos de volta.
Eu sou a Angola que assenta no teu mutuê. O mar assistiu em segredo a sua partida sem despedida, mas o agora não mora nas dores do Atlântiko, habita no retorno. Sou Porto-Terreiro, feito que arde como jindungo. Sou barro e terra onde nossos ancestrais ainda escutam o rugir do Tigre no bailar do vento. Símbolo este que te convida de volta.
Mas não venha como estrangeiro!
Pise como quem nunca partiu: Peça licença, pise descalço, bata cabeça. Cante e dance as nossas músicas; reverencie nossos Heróis; coma a nossa comida com as mãos, sinta o gosto dos dedos. O tambor te chama pelo nome! Deixe-me ver nossos deuses no teu corpo. Sussurre ao sagrado o segredo dos teus ancestrais.
Bem-vindos de volta.
Mesmo com o corpo tomado em luta nesses últimos anos, me refiz nas feridas e cobri cicatrizes para conhecer o que fez com as sementes que eu te dei. Sei que plantou em morros, cortejos, palcos, ruas, Sambas e Sembas. A arte popular que de longe me vi estar. Trago comigo novas sementes plantadas em Luanda, Benguela e Lobito, território livre de onde vi brotar a cultura do povo.
Volte e pegue.
Não esqueça de mim, pois nunca te esqueci. Para andar para frente, não deixe de olhar para trás. Resgate a sabedoria e as raízes do meu passado que brotam em seu legado. Vejo meus galhos no folclore alagoano de Djavan; na Morena de Angola de Clara e Chico; na negra-Bahia de Caymmi; no colo materno africano embalado na Madureira de Dona Ivone; na Ilha de Mussulo de João Nogueira “teve gente que chorou”; “Mas se teu povo te impressionar demais,” Martinho, “Pode crer no Axé do Seus Ancestrais” e faz dessa kizomba a constituição dessa Nação Brasingola, fruto do embondeiro que perpetua nossos laços.
Texto e Pesquisa
Alex Carvalho, Beatriz Chaves, Caio Cidrini e Thainá Santos
GLOSSÁRIO
Kalunga: “mar”, “oceano”, grandes massas de água em quimbundo
•Luanda, Benguela e Lobito: cidades angolanas
•Mussulo: península de praias de areia branca e águas calmas ao sul de Luanda
•Mutuê: “cabeça” em quimbundo e um termo central nas religiões de matriz africana
•Atlântiko: grafia estilizada de oceano no qual trocamos o “c” pelo “k” de Kalunga
•Jindungo: nome dado em Angola a uma variedade de pimenta malagueta
Kizomba: termo do quimbundo que significa festa e divertimento
•Brasingola: termo que une Brasil e Angola de forma indissociável
•Embondeiro: nome angolano para o baobá, árvore símbolo de resistência,
ancestralidade, força e sabedoria
REFERÊNCIAS
BARRETO, Mariana. O Projeto Kalunga: os significados das Produções Musicais populares brasileira e angolana para além dos limites do território nacional. In: Congresso Brasileiro de Sociologia, n. 18, p. 26-29. Brasília (DF), 2017.
BARRETO, Mariana. Músicas populares e as fronteiras atlânticas da turnê Projeto Kalunga em Angola. In: O Público e o Privado, n. 46, p. 78–102. Fortaleza, 2024.
CASTRO, Maurício Barros de. Diário do Projeto Kalunga: Memórias e narrativas de uma Missão de Músicos brasileiros na Guerra Civil de Angola. Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, n. 1, p. 115-126. Rio de Janeiro, 2016.
VILA, Martinho da. Kizombas, Andanças e Festanças. 1. ed. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992.
ENREDO EM HOMENAGEM A Bahia, Bolinho, Café, Caldeira, Chico Batera, Chico Buarque, Clara Nunes, Cristina Buarque, Danilo Caymmi, Djavan, Dona Ivone Lara, Dorival Caymmi, Dulce Tupy, Edu Lobo, Elba Ramalho, Fernando Faro, Fernando Mansur, Filipe Mukenga, Francis Hime, Geraldo Azevedo, Grupo Nosso Samba, Iolanda Huzak, João do Vale, João Nogueira, Lelé, Lessa, Maria do Carmo Buarque de Holanda, Marieta Severo, Martinho da Vila, Miúcha, Novelli, Olívia Hime, Paulinho Sauer, Quinteto Violado, Roberto Ângelo, Rui Mingas, Ruy Faria, Ruy Guerra, Tânia Quaresma, Waldemar Bastos, Wanda Sá, Wellington Lima, Zé Luiz e tantos outros filhos e filhas da diáspora, artistas das travessias. Aos que vieram antes e depois. Aos que se encantaram e aos que persistem. Aos brasileiros e aos angolanos. Aos brasingolanos.
10nota10.com / Redes Sociais / Porto da Pedra – RJ













