A Carreira de Neguinho da Beija-Flor com 50 anos de Avenida é recheada de quinze títulos e muitos Sambas memoráveis. Uma voz que, mesmo longe da Sapucaí, segue ecoando na memória e no imaginário dos amantes do Carnaval. Essa brilhante trajetória foi lembrada na última sexta-feira, na roda de conversa dos Intérpretes de Sambas-Enredo, realizada no auditório da Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro. O evento, que recebeu o nome do Cantor, teve sua primeira edição e contou com a presença de Intérpretes e Personalidades do Carnaval discutindo temas como a Profissionalização dos Intérpretes e revisitando momentos da Carreira do Astro de Nilópolis.
A mesa debatedora contou com a mediação do Jornalista e Compositor João Carlos Barreto, do Compositor e Presidente da Filhos da Águia, Celsinho de Andrade, também filho do ex-Intérprete da Portela Avelino de Andrade, do Intérprete Eraldo Caê, auxiliar de Jamelão por 25 anos na Mangueira, e de Juan Reis, jovem cantor, Intérprete Oficial da Mocidade Independente de Inhaúma e Integrante da equipe de Cantores da Portela e do Arranco do Engenho de Dentro, além do homenageado do dia. A celebração se iniciou com a exibição de vídeos mostrando vários momentos da Carreira do Intérprete e depoimentos de figuras ilustres da Beija-Flor, sua amada Escola, como Selminha Sorriso, o Presidente Almir Reis e Gilson Bacana, companheiro de Carro de Som por mais de três décadas. Na sequência, iniciou-se o debate, citando a longeva carreira do Cantor Multicampeão e como ele se tornou um nome tão marcante num universo traiçoeiro que é o Carnaval, onde inúmeros nomes que fizeram tanto por suas Escolas terminam esquecidos.

O reverenciado da tarde lembrou da sua chegada ao Universo das Escolas de Samba e de já levar uma então emergente Beija-Flor ao seu primeiro Campeonato. “Quando era garoto, ouvia um Jamelão, um Silvinho da Portela e queria ser como eles. Aí, de repente, estava lá com eles nos Eventos, só agradecia a Deus. Nunca imaginei que eu criaria coisas para o Carnaval, que viveria fatos tão marcantes como criar o grito de guerra para minha Escola, proporcionar a ela o primeiro Campeonato, que quebrou o tabu das quatro grandes. Jamais imaginei que o Neguinho da Vala chegaria tão longe”, disse Neguinho, que também lembrou um fato que o incomodou em relação à desvalorização do Artista do Carnaval. “Numa ocasião fui fazer um show numa cidade da Itália chamada Rimini. Aí tinha um cartaz anunciando Gilberto Gil, o Rei do Samba. Ali eu comecei a brigar pelos sambistas e pelo samba, pois Gilberto Gil é um grande artista, mas não do Samba. Rei do Samba era Jamelão, Martinho da Vila. Hoje o sambista recebe muito convite para ir lá para fora e tenho orgulho de dizer que fui um dos que deram o pontapé inicial nessa história”.
O Artista bateu na tecla da importância da valorização dos Profissionais do Carnaval na questão financeira e dos Cantores em relação aos demais gêneros musicais, incluindo o próprio Samba fora da folia. “A diferença de remuneração de um Cantor normal de Samba, que tenha uma carreira fora do carnaval, para um intérprete é simplesmente 100 vezes maior. O intérprete de Escola de Samba é o menos valorizado. Não é possível uma Escola de Samba do Grupo Especial hoje não fazer o que o Anísio fez comigo. Ele deveria ser um exemplo para os demais, para que o Intérprete de Samba-Enredo não fique tão distante de qualquer outro Cantor de Samba ou dos demais gêneros. E que as Escolas façam mais pelos seus num todo, pelo Mestre-Sala, Porta-Bandeira, pelas Baianas, pelos Componentes em geral. Hoje as Escolas têm dinheiro, faturamento maravilhoso e, muitas vezes, têm 3.000, 4.000 pessoas trabalhando para essas Escolas de graça. Está na hora de valorizar os seus segmentos”, afirmou.

João Carlos Barreto citou exemplos de esquecimento que ele presenciou em sua longa trajetória. “Guardo no coração a lembrança de um grande amigo, um irmão, era da Vila Isabel e, no seu funeral, não tinha um representante da Escola, nem a Bandeira estava lá. No velório do grande Jorge Tropical, eterno Intérprete da Vila, a única pessoa que esteve lá foi o Dedé Aguiar, do cavaco, mais ninguém. Sem este passado não existe presente, então que as pessoas que comandam o Samba não esqueçam dos grandes sambistas”, ressaltou.
Celsinho de Andrade contou um pouco sobre a história do seu pai, conhecido como o “Crooner de Ouro” da Portela, e lembrou da fidelidade de Neguinho da Beija-Flor à Escola de Nilópolis, algo que classificou como extinto nos dias atuais. “Antigamente você tinha isso, o que o Neguinho fez na Beija-Flor, começar e terminar na mesma Escola, meu pai fez isso. Hoje não se vê mais. Ganhei sambas como Compositor na Portela e não quis competir em outras Escolas, pois meu amor estava em Madureira. Meu pai me ensinou essa fidelidade, que hoje é bem difícil de ver. Tudo ficou tão profissional que hoje esquecemos das pessoas que fizeram por amor lá atrás. O Neguinho, daqui a 50 anos, será lembrado, mas lembrarão do Eraldo Caê? Do meu pai, meia dúzia da Velha Guarda lembra. Meu legado hoje na Filhos da Águia é passar a história desses grandes nomes para a nova Geração”, declarou.

Contemporâneo de Neguinho da Beija-Flor em boa parte da sua Carreira, Eraldo Caê falou da sua convivência com Jamelão e dividiu uma história com o Mestre. “O Jamelão tinha um preparado para ele tomar antes do Desfile. Em 98, ano do Título com o Enredo do Chico Buarque, acho que ele esqueceu, só pegou a garrafa quase na hora do Desfile começar, me ofereceu e eu tomei um gole só, ele tomou metade daquela garrafa. Cantamos muito e eu, com um gole, esquecia até que tinha um lenço guardado no bolso para secar meu suor. Acabou o Desfile, fomos para o Camarote e o Jamelão tomou dois copos grandes, cheios de uma bebida que só ele e o garçom sabem qual era. Sei que, quando ele terminou de beber, dormiu em pé durante as duas Escolas seguintes. Essa era a preparação do Jamelão”, contou Eraldo, aos risos.
Juan Reis, caçula da mesa e representante da nova geração de Puxadores de Samba-Enredo, lembrou do seu início e de sua maior referência. “Meu primeiro ano como Componente na Portela, vi o Gilsinho cantar e, na hora, falei que queria aquilo para a minha vida, queria ser Intérprete de Samba-Enredo. A paixão surgiu, comecei a estudar sobre e as oportunidades foram surgindo. E o Gilsinho se tornou um Mestre, meu grande ídolo. Hoje faço parte de uma nova Geração bastante talentosa, chegando para honrar o legado dos grandes Mestres. Recentemente fui anunciado como Integrante do Departamento Musical da Portela, um sonho realizado. Só tenho a agradecer pela confiança depositada por Nilce Fran e Junior Escafura e honrar com meu trabalho”, afirmou Juan.

O Evento foi organizado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, que tem fomentado uma série de debates e seminários sobre a festa popular. Sérgio Firmino, assessor especial da pasta, declarou que novos Eventos estão sendo pensados para o calendário. “A partir deste momento, o que nós instituímos? Toda vez que tivermos uma roda de conversa em âmbito estadual, ela terá que se chamar Roda Neguinho da Beija-Flor, assim como o Seminário realizado no dia 23 de janeiro, aniversário da Maria Augusta. Qualquer seminário de Carnavalescos será o Seminário Maria Augusta, e por aí vai. Assim vamos criando uma efeméride anual. No próximo dia 27 vamos homenagear Nelson Sargento. Em 20 de agosto deveremos ter um debate sobre a diversidade sexual e de gênero no Carnaval, sempre discutindo temas, melhorias. Não adianta só homenagear e bater palmas, aqui é um lugar aberto para discutirmos estes temas sem retaliação”, disse Sérgio.
A Roda de Conversa foi encerrada com Neguinho cantando “A Voz do Morro”, o Clássico de Zé Keti. Poucas pessoas podem falar “eu sou o samba” com tanta propriedade quanto Luiz Antônio Feliciano Marcondes, o Neguinho da Beija-Flor.
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