Há sambas que chegam na hora certa. Foi o que aconteceu com Marquinho Art’Samba quando ouviu, pela primeira vez, o refrão que a Unidos da Tijuca levaria para a Sapucaí em 2026. Intérprete de um dos mais aclamados Sambas da Estação Primeira de Mangueira, Marquinho encontrou no samba da Tijuca deste ano uma metáfora para a própria vida. Depois de superar um problema sério de saúde, vive um momento de virada de chave pessoal e celebra a oportunidade de seguir construindo sua Carreira como Intérprete Oficial, enquanto acompanha, com orgulho, o filho trilhar o mesmo caminho como Intérprete de apoio do Império Serrano. Marquinho fala sobre tudo isso: a saúde, a Carreira e o que significa, ainda hoje, ter fome de provar seu valor no Samba.
Marquinho Art’Samba: A gente fica muito feliz e, ao mesmo tempo, preocupado. Porque a minha chegada até aqui foi uma chegada muito árdua. Quando a gente vem de família que já é do meio, as coisas ficam um pouco mais facilitadas; quando não vem, é diferente. Minha preocupação, com relação ao meu filho, é justamente para ele não passar o que eu passei. Para que, amanhã, se ele receber um “não” e ficar frustrado com alguma coisa, ele não desista. É muito bacana ver o meu primogênito seguindo o mesmo passo do pai, ainda mais hoje, com o mundo tão violento, está tão difícil criar um filho. E, graças a Deus, acho que o mais importante é que eu já criei um homem: ele já está com 24 anos, casado, já me deu uma neta. Isso é muito legal.
Costumo dizer que todas as Escolas por onde passei têm os seus momentos. Desde criança, sempre dizia que um dia seria o Cantor da Mangueira, por ser a Escola de Samba da minha família. Muita gente não acreditava nisso. Quando cheguei lá e, logo no primeiro ano, fomos Campeões com um Samba que, pra mim, é um dos mais importantes da Estação Primeira de Mangueira, um dos dez Sambas mais importantes da Escola, fico muito grato por isso, e por ter ficado nessa história da Estação Primeira.
Até hoje, já vou para o meu segundo ano de Tijuca, o mangueirense ainda não assimila me ver cantando em outra Escola. Dá aquele saudosismo neles. Acho isso legal, mas já passou. E quando falam que tenho uma voz parecida com a do Jamelão, a sensação é a melhor possível. Poxa, ser comparado ao Mestre… Costumo dizer que o Jamelão é o Pelé do Samba. Não sei se ele gostaria de ser chamado assim, se estivesse aqui, mas ele é o nosso Mestre do Samba.
A UPM foi a Escola que me projetou para o Mundo do Carnaval. Até então eu tinha passado por outras Escolas, mas como Cantor de apoio. Quando a UPM me deu a oportunidade de ser Cantor Oficial, de 2012 para 2013, ela ainda estava no Grupo B. Fiquei 2013, 2014, 2015. O Carnaval em que acho que a UPM merecia mais foi o de 2015, com o Enredo de Ariano Suassuna. A Escola ganhou praticamente todos os prêmios daquele ano; só não ganhou o Desfile. Também acho que merecia o de 2017, mas eu já não estava mais lá. O carinho que tenho por essa Escola é grandioso. Sou grato a tudo.
Talvez, se fosse hoje, fosse diferente. Hoje enxergo a Imperatriz com mais pulso, com mais vontade. Aquele carnaval de 2016 tinha tudo para ser arrebatador, inclusive pelo Samba: foi um sambaço. Acho que, naquela época, a Imperatriz não tinha o pulso que tem hoje. Faltou isso. Hoje a Escola está mais aguerrida, mais próxima da Comunidade. Embora tenha ficado em sexto lugar naquele ano, se fosse com o pulso de hoje, a Imperatriz brigaria muito firme lá em cima pelo Título.
Quando o Fernando Horta me ligou, eu estava dirigindo. O telefone tocou e apareceu o emblema da Tijuca no WhatsApp. Fiquei tenso, encostei o carro e atendi. Era ele: “Marquinho, queria bater um papo, almoçar com você amanhã. Dá pra ser?”. Eu falei: “Claro, seu filho, dá pra ser. Qual o horário?”. A conversa durou uns 20 minutos; o resto foi ele contando da vida dele, da passagem pelo Vasco, de como chegou na Tijuca. É um Presidente muito presente, que sabe de tudo o que acontece na Escola. E tem uma coisa que eu nunca comentei com ninguém: ele não me perguntou sobre o meu problema de saúde, que foi muito grave. Ele simplesmente confiou: “vamos trabalhar”. Isso me toca muito. Sou muito grato a ele por ter confiado em mim e no meu trabalho. Hoje estou muito feliz nessa Escola. Já recebi outras propostas, mas não penso em sair daqui.
Já tinha saído da Mangueira, e estava quase fechando com a Barroca Zona Sul, em São Paulo. Quase, quase. Mas Deus disse assim:“dá uma segurada aí, encosta o carro aí, ainda tem coisa pra você aqui, o teu momento no Rio de Janeiro não acabou não”. E não acabou mesmo. Sou muito grato a essa Escola. Hoje ser abraçado por toda a Comunidade, por todo o Borel, só me dá a responsabilidade de trabalhar cada vez mais e de me cuidar.
Graças a Deus, com a saúde estabilizada. Voltei a ser um garoto. Acho que, a partir do momento em que você leva uma porrada dessas, você entende que precisa se cuidar. E hoje, graças a Deus, estou bem. Todo mundo sabe que tenho um problema no coração, insuficiência cardíaca, mas hoje é uma coisa bem acompanhada… tenho um médico que é um dos maiores cardiologistas do Brasil. Estou na mão dele e faço tudo que ele determina. Não bebo mais, já tem quatro anos. As pessoas acham que só dei um tempo, mas não: o guerreiro não para, o guerreiro dá um tempo (Risos). Cumpro tudo que o médico determina. Meu grande sentido é a minha família, em primeiro lugar, e depois é a minha Carreira. Tomo os remédios todo santo dia, faço fono, aula de canto, cuido da alimentação e do horário de dormir. Isso está me ajudando muito, hoje levo uma vida normal.
Marquinho Art’Samba: Antes da Jéssica teve a Grazzi [Brasil], de quem as pessoas falam pouco. E antes da Grazzi, lá atrás, teve a Elza Soares e a Surica. Aqui na Tijuca teve a Wic [Tavares] que também foi Cantora oficial. Elas estão aí chegando, invadindo mesmo, e acho isso muito bacana. A Lissandra é muito minha amiga, de muitos anos. Eu não prendo as pessoas que trabalham comigo; coloco todo mundo para aparecer, porque fizeram isso comigo também. Para que todo mundo entre na vitrine, apareça e siga o seu caminho… e me deixar aqui na Tijuca (Risos).
Olha, o samba de 2019 foi o meu primeiro ano de Mangueira, com toda aquela potência que todo mundo conhece; fiquei muito emocionado com aquele Samba. O de 2026 foi um Samba que, por tudo que passei na Mangueira, me fez ver ali também a possibilidade de mudar a minha própria história. Os Compositores sempre mandam o Samba pronto para a gente ouvir. De cara, quando veio o trecho “muda essa história, Tijuca, tira do meu verso a força pra vencer, reconheço seu lugar e luta, esse é o nosso jeito de viver”, comecei a chorar. Eu sou muito emocionado com esse Samba. Posso dizer que foi o Samba mais importante da minha vida até agora, porque foi a virada de chave. Não é só a mudança da história da Escola: ali também estava mudando a minha história.
Voltar a acreditar no meu trabalho de novo. Não tenho vergonha de dizer que passei três anos na Mangueira dividindo o Carro de Som com outra pessoa, o Dowglas [Diniz], que eu adoro, isso não tem nada a ver com ele, mas eu podia ter sido um pouco mais olhado pela história. Quando venho para uma Escola grandiosa como a Tijuca, é aquela sensação de que ainda tenho muito para contribuir com o Carnaval. A gente não tem que provar nada pra ninguém, mas esse Samba era uma coisa minha, do meu interior. E agora, no ano que vem, é fazer valer; porque a gente tem que estar sempre se provando. Já retomei as aulas de canto, o trabalho de fono, tudo de novo. 2027 já começou.
É uma Bteria para Cantor, porque tem cadência o tempo inteiro. Foi o que entendi logo de cara, embora já conhecesse a Bateria do Casão há muitos anos sem tê-la vivido de dentro. No meu primeiro Ensaio já comecei a entender isso, e veio um Samba maravilhoso… aí foi mamão com açúcar, um casamento perfeito. E esse casamento também é a relação entre as pessoas; o Ritmista olhar para o Cantor e acreditar nele. Vi muito isso vindo dos Ritmistas da Escola, me abraçando também, sem falar do Casão e da Diretoria. Foi muito legal.
Depois do Carnaval a gente relaxa um pouco, porque não é o tempo todo naquela cobrança. Por incrível que pareça, já voltei para a fono e para as aulas de canto. Sou muito rígido e cumpridor do meu dever com médico, fono e aula de canto. E o resultado está sendo maravilhoso.
Acho que, à medida que o Carnaval vai tomando outro rumo, todos os Setores (Intérprete, Carnavalesco, Coreógrafo) precisam se Profissionalizar mais. Hoje o Quesito Harmonia está muito em cima do Carro de Som, então a tendência é essa valorização crescer a cada ano, com mais Profissionais envolvidos. Hoje, no Carnaval, não cabe mais o cantor desleixado, bêbado, cantando mal. Temos que estar sempre atentos e trabalhando para continuar no páreo.
Acho que, por ser o lado artístico da Escola de Samba, a avaliação deveria ser um pouco mais livre. É só por isso.
Sobre o novo som da Avenida. A avaliação é amelhor possível. É um sistema que valoriza o Cantor. Podemos cantar em qualquer parte da Avenida, com a Bateria a 100 metros de distância e ainda assim trazê-la pra perto de você pelo fone. Pra mim, foi a melhor coisa que o Gabriel [David, Presidente da LIESA], junto com a Equipe, colocou. No início ficamos receosos, mas já no Mini-Desfile percebemos que o negócio ia funcionar, e deu certo. Não tem volta. Foi um presente para os Cantores.
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