
O ano mal começou e a rotina já engoliu boa parte dos nossos dias com a velocidade de sempre. É boleto, é correria, são os "trancos e barrancos" que todo brasileiro conhece de cor e salteado. A vida flerta com o cansaço, e a gente, por vezes, quase perde o fôlego. Quase. Porque, se tem uma coisa que o nosso peito sabe fazer de forma automática quando o calendário avança, é mudar o ritmo do batimento. Sem que a gente perceba, o ar muda de textura. De repente, o som do trânsito parece ensaiar uma batucada e o suor do dia a dia já não é só de cansaço — ganha um brilho diferente. É o oxigênio do Carnaval que começa a circular nas veias. Falar de Carnaval não é falar apenas de quatro dias de festa ou de um feriado no calendário. É falar sobre uma chave que a gente vira na mente para conseguir resistir. É o único momento do ano onde o lúdico e a realidade se abraçam sem pedir licença. Aos trancos e barrancos, as escolas de samba superam a falta de verba com criatividade pura; os blocos de rua transformam esquinas comuns em palcos de pura catarse; e o cidadão comum encontra na purpurina a armadura que precisava para enfrentar o resto do ano. O editor me pediu para não fazer deste texto "uma coisa só". E ele tem razão. O Carnaval não é uma coisa só. Ele é o paradoxo perfeito: é o cansaço que descansa, é a fantasia que revela quem somos de verdade, é o choro da comissão de frente que vira o riso da arquibancada. Para quem acha que ainda é cedo, sinto informar: o tamborim já ditou o passo. Aos trancos, aos barrancos, e com o coração na boca, nós já estamos respirando Carnaval. E que bom, porque o peito já estava precisando desse fôlego. Nota 10 para a nossa eterna capacidade de nos reinventar na alegria.





















